Qual o sabor da morte para você?

Acabo de passar pela pizzaria cujo dono foi acusado de homofobia e quem está conversando justamente com ele que em áudio deseja a minha morte e a de todos os LGBTQIAP+? Alguém próximo. Estou sentindo uma dor tão grande que antes os dois tivessem se unido pra me matar mesmo, mas que matassem com uma faca que perfura e suja. Que molha o corpo inteiro. E que orem com as mãos ao rosto tão vermelhas e tão encharcadas que não consigam nunca mais abrir os olhos colados do ódio que semeiam. Que permaneçam com os olhos fechados. E que nunca mais os abram porque enxergar não é útil a cegos funcionais.




IMAGEM | PublicDomainImages por Pixabay

Que gosto tem a frustração e morte para vocês? Desde a última semana, para mim, tem um gostinho de pizza e massa. Meus pais sabem o quanto eu amava chegar em casa nas sextas à noite e comer macarrão comprado especificamente no local cujo o dono virou notícia na última semana. Nunca mais eu compro naquele lugar. E quem comprar, seja feliz ao sair da minha vida para sempre. Porque? Ora, porque o dono daquele estabelecimento me quer morto, segundo suas próprias palavras. Eu, cliente que sempre paguei, sustentei aquela marmota por anos, que entre todas as outras centenas de estabelecimentos escolhi comer e dar o dinheiro suado meu e dos meus pais a aquilo ganho este presente: o dono quer que eu, meus amigos e iguais morram. Formidável!

Esse texto nem iria sair, estava cortado e jogado fora. Como sempre nessas situações, eu preferi guardar para mim, mais uma vez, o ódio recebido. Mas por um milagre de Deus eu presenciei hoje essa cena que não acabou só com o meu dia, acabou com a minha semana, com parte de mim instantaneamente, a parte que não tinha ido embora junto à eleição de um monstro em que parte de pessoas queridas decidiram assassinar milhares de vidas ao apertar no confirma da urna. Desejo que cubram a vergonha que ainda sentirão com o sangue que escorre pelas mãos imundas. Hoje eu me cansei pra caralho e a verdade vai ter seu dia. Porque se calar as vezes não evita conflitos, calar-se as vezes só significa deixar que os conflitos continuem existindo silenciosamente. Que as mortes continuem existindo. E a quem estamos tentando enganar? Calar-se às vezes é quase um matar-se. Chega pra mim, porra. Opinião é igual a cu e quem quiser vai dar.

Porque é tão difícil para alguns cristãos amar? O que o cu da outra pessoa diz respeito a essas pessoas? Porque tantos fiscais de cu e nenhum fiscal da miséria humana que assola o mundo? Não tem um fiscal para ver a violência? Não existe um fiscal que se preocupe não com como estão os furicos do mundo, mas com como estão os estômagos vazios que morrem de fome? Que Cristianismo é esse? Nunca um sufixo esteve tão certo: talvez venha de doença mesmo.

Esse texto não é valente, esse texto é gritado e chorado e sangrado e massacrado porque é um texto farto. É um desabafo, é um pedido de socorro à Deus. O que eu fiz de errado para que uma pessoa que reza tanto deseje, gratuitamente, a minha morte e a de milhões de pessoas, que sequer conhecemos? Lembro até de Orações para Bobby agora.

Evitei tanto levantar a cabeça quando o carro parou em frente aquele lugar. Já sabia a cena que veria. E agora eu não me perdoo, sabe porque? Porque eu cumprimentei aqueles monstros. Eu cumprimentei com um sorriso alguém que quer que eu morra. É um gesto que a boa convivência exige daqueles que são oprimidos extremamente violento para com eles. Nós estamos diariamente sendo violentados através de gestos como esses. Você tem ideia do que eu senti? Se nunca passou por isso, cale-se. Pergunte a um judeu que tenha cumprimentado Hitler. É dor, minha gente. É dor. É uma chaga no meio do peito. Quem é acostumado a bater palmas pra fascista não sente porque não tem mais peito, não tem mais nada que valha muito a pena, mas quem ainda tem coração, a quem ainda resta essa migalha humana, dói muito. Dói como um tiro silencioso que causa gangrena e mata por dentro. E hoje o sangue vai jorrar aqui, mas em forma de texto. A quem não goste, nada que me abale: já deseja que eu morra mesmo, deseje duas vezes agora. É o meu presente. Se é o ódio que você gosta de sentir vestido em seu paletó e orquestrado em sua fileira, sinta duas vezes esse ódio por mim. Sinta no peito e no seu coração parado como uma droga que penetra mais fundo na alma.

Mainha, com boas intenções, me diz para lidar com as adversidades, mas ela não entende. Não é ela que está sendo jurada de morte. Não é questão de lidar com adversidades, é questão de lidar com pessoas que querem te assassinar. Como diabos se faz isso? Aliás, como pode o amor matar? Como alguém pode fazer isso em nome dessa preciosidade? Eu quero é matar com muita bondade esses criminosos do ódio.

Para muita gente, a gente é que tem que ter sangue frio enquanto nos matam. Morrer calados. A gente é que tem que ter paciência. Paciência enquanto nos matam. Paciência pra quê? Para esperar que não seja mais o nosso amigo morto, sejamos nós mesmos? Mas é muito interessante: nos calam, nos matam, nos massacram e nós é que estamos sempre errados, não importa o que façamos. Não importa. Me desculpem a deselegância, não aceitarei mais ser castrado e não vou mais me calar esperando que o próximo conte nossa história enquanto o anterior está num caixão a sete palmos da terra.

Mainha não tem medo de dar as mãos, de beijar o esposo na rua. Quem é LGBTQIAP+ sente uma lâmpada na cabeça a qualquer momento – às vezes, literalmente -. E haja fixação com o cu mesmo, porque a gente está sempre andando com ele na mão de tanto medo. É demais pedir empatia?

Eliane Brum dizia essa semana numa palestra que assisti que a infância não é para todas as crianças. Eu acho, do fundo do meu coração, que perdoar e lidar com as adversidades não é também. É para quem não precisa juntar e suportar tanta dor dentro do peito. Tanto ódio e merda sendo jogados. E olhe que tenho profunda consciência de que ainda sou é muito do privilegiado. É fácil para quem não vive na pele achar exagero, achar absurdo não quem me promete me matar, mas eu escrever que não aceito isso. Veja a sociedade em que vivemos: as vítimas exageram. Os agressores são coitados. E se bandido bom é bandido morto, o que merece quem deseja homicídio? E quando serão executados?

Aos monstros leitores: não me olhem mais, não falem de mim, comigo, não me toquem, porque para vocês estou como desejam que eu esteja: morto. Me enterrem. Me enterrem nos seus ódios, o seu amor é pior do que ele. Eu não quero. Esse texto é um rompimento com vocês e com o Paulo covarde que aguenta calado. Agora Paulo aguenta em pé e com um microfone ligado no máximo. Gritando. E não é para os vilões que eu quero falar, na verdade. É gente sem jeito. Eu quero falar é com você que ainda tem um coração pulsante: estamos juntos. E nós vamos mudar tudo isso. Eu acredito.

Já pensou se fosse o contrário? Se fosse alguém desejando matar todos os religiosos? Porque no nosso mundo alguém pode desejar viados mortos, mas não pode ler um texto? Que espécie de sujeito é esse que pode falar merda, mas não pode ouvir argumento? Que sujeito é esse que pode lançar seu ódio sobre os outros com suaves sorrisos que não pode ler um texto-resposta? Pois agora vai ter texto aqui SIM! E quem fala merda agora vai ter que saber que vai ter resposta porque silenciadas as minorias – que nunca foram minorias porra nenhuma! – já foram por tempo demais. Agora são elas que vão falar. E vai ter quem escute. Quem não gostar de ouvir vai ter que aprender porque não é mais criança mimada e sociedade é isso: coletivo.

Meu sonho é Jesus voltar e antes de ser morto de novo pelas mesmas pessoas, pelos mesmos religiosos que fingem tão mal o amor, avisar que o evangelho é sobre uma parte do corpo que começa com c mesmo, mas não é o cu, são os corações. Mas o ódio não é o pior que os falsos cristãos guardam em si, o pior é que não basta para eles nos matarem fisicamente. Eles envergonham Cristo porque eles matam a gente por dentro, eles envenenam tudo o que tocam em nome de seus dogmas e suas flageladas consciências. Eles enlouquecem todos com os quais convivem, eles parecem constantemente preocupados com a vida dos outros, não com as suas próprias jornadas.

É isso é o que nós não podemos deixar que aconteça. É isso que os verdadeiros cristãos, os que amam, não podem deixar que aconteça. Porque quanto mais eles matam a Cristo subvertendo todas as suas palavras sobre amar ao próximo, mais eles morrem também. A gente precisa se vestir com uma armadura gigantesca de amor, cair e levantar. Por todas e todos que estão conosco. Porque fingir que não nos abalamos nos mata por dentro também. E eu estou cansado de morrer. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. E eu vou oferecer o melhor de mim dentro dessa coluna para que denunciemos, mas para que curtamos o melhor da vida e de nós mesmos juntos também. Do meu coração sabe eu. E do meu corpo também. PAREM DE NOS MATAR. PAREM DE NOS MATAR.

“Há seis coisas que o Senhor odeia,

sete coisas que ele detesta: olhos altivos, língua mentirosa,

mãos que derramam sangue inocente, coração que traça planos perversos,

pés que se apressam para fazer o mal, a testemunha falsa que espalha mentiras

e aquele que provoca discórdia

entre irmãos” – Provérbios 6:16-19

“Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens’ ” – Mateus 15:7-9

“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão” –  Mateus 7:3-5

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade”. – Mateus 23:27-28

“Eles afirmam que conhecem a Deus, mas por seus atos o negam; são detestáveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra”. – Tito 1:16

  • Coluna do Paulo Rossi

    Qual o sabor da morte para você?

    Acabo de passar pela pizzaria cujo dono foi acusado de homofobia e quem está conversando justamente com ele que em áudio deseja a minha morte e a de todos os LGBTQIAP+? Alguém próximo. Estou sentindo uma dor tão grande que antes os dois tivessem se unido pra me matar mesmo, mas que matassem com uma faca que perfura e suja. Que molha o corpo inteiro. E que orem com as mãos ao rosto tão vermelhas e tão encharcadas que não consigam nunca mais abrir os olhos colados do ódio que semeiam. Que permaneçam com os olhos fechados. E que nunca mais os abram porque enxergar não é útil a cegos funcionais.
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Sobre Paulo Rossi

Graduando em Jornalismo pela Universidade Federal do Cariri - UFCA. Amante, principalmente da 'dúvida'. Existencialista. Sonhador. Louco.

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