O afiado facão de Lunga: uma entrevista com Silvero Pereira sobre Bacurau

Debaixo da língua, uma semente de marcela. No palmo da mão, um facão afiado. Lunga no filme Bacurau, interpretada pelo ator Silvero Pereira, aparece como uma provocação de um Brasil não se vê no espelho. Com unhas pintadas, a personagem desafia os estereótipos de cabra macho e põe em cheque a família tradicional no retrato da sala de jantar

Debaixo da língua, uma semente de marcela. No palmo da mão, um facão afiado. Lunga no filme Bacurau, interpretada pelo ator Silvero Pereira, aparece como uma provocação de um Brasil não se vê no espelho. Com unhas pintadas, a personagem desafia os estereótipos de cabra macho e põe em cheque a família tradicional no retrato da sala de jantar

Nos entrelaçamentos do cinema gore e da ficção científica, o filme Bacurau (2019), dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é uma obra franco-brasileira que retrata cenas de um Brasil não tão distante. No sertão pernambucano, debaixo da poeira de chão batido, entre os pneus e o para-choque de um caminhão pipa, e por cima do voo de um pássaro noturno que nomeia a obra, uma pacata comunidade vive nas paisagens dos pequenos gestos do Nordeste. Até onde o olho alcança e até onde o ouvido percebe, os moradores de Bacurau possuem modos de vida menores, enquadrados nas janelas de madeira, porém buscam uma utopia maior, esperançada em um bem comum coletivo. Matar a sede.

Há uma diferença no povo de Bacurau: a comunidade sabe que as folhas sobem para procurar o sol e, por isso, eles procuram resistir por uma condição mais viável de vida, pela forma de encarar a seca com ternura, através do barulho de uma viola na cantoria de um repente ou da sensação de um facão afiado cravado na aorta do pescoço. É pela segunda via que a busca da utopia parece conduzir a comunidade na busca por reconquistar a vida e o território, localizado na região da Serra Verde, que some do mapa após a morte de uma matriarca, chamada Carmelita, interpretada pela cirandeira Lia de Itamacará, 75, que recentemente ganhou o título de Doutora honoris causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Uma das cenas do filme interpretada por Silvero

Bacurau é um filme composto de fragmentos, compostos por reflexos de um país que não se vê através do espelho. O que as tecnologias de gestão da vida e do poder político e econômico não sabem é que uma semente de marcela debaixo da língua pode funcionar como um psicotrópico forte capaz de aliar os moradores e de expandir a potência do poder da comunidade. Lunga, personagem interpretada pelo ator Silvero Pereira, 37, é uma das pessoas que manda amolar todas as facas de um passado no corpo do presente. Com unhas pintadas, facão na mão e sede na garganta, a personagem que rompe com o binarismo de gênero, convencionado entre o masculino e o feminino, rende com golpes no pescoço a tirania política do privilégio social no Brasil.

A obra do audiovisual nacional venceu o Prêmio do Júri e foi indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019, França, foi indicado como melhor filme no Festival de Cinema de Sydney, Austrália, e venceu na mesma categoria nos Festivais de Munique e Lima, ambos na Alemanha e no Peru, respectivamente. Mas, o que Bacurau fala sobre nós? Acompanhe uma entrevista do ator cearense Silvero Pereira para o Foobá.

Sônia Braga, no papel de Domingas, e Udo Kier, no papel de Michael.

Como foi o processo de incorporação da personagem Lunga antes da interpretação do filme?

Bom, Lunga tem uma criação muito significante para mim porque ele parte da criação da conversa com Juliano e Kleber e toda a equipe. Primeiro, Juliano e Kleber me apresentam o roteiro, falam das intenções deles para a personagem e de como muitas coisas subjetivas e subtextos estariam na cena sem precisar ser ditas, mas pelas ações, pelo olhar, pela forma de pensar e de agir, por um gestual que não precisava ser explícito pela personalidade da Lunga. Outra coisa interessante foi a relação com o pessoal da caracterização, maquiagem, cabelo e também figurino, por que no primeiro teste de figuro conversamos muito sobre cor de cabelo, o que usar, que tatuagens seriam aplicadas se teriam ou não unha pintada. Quem é essa figura? O que ela pensa? Tudo isso foi um estudo muito profundo que me fez ter uma personagem muito concreta e muito sólida na hora de entrar no set para gravar.

Qual foi a primeira coisa que pensou quando soube do papel da personagem?

Eu pensei em Lunga como um justiceiro, alguém que é daquela comunidade, que é contra o sistema, mas que infelizmente não se sente à vontade de agir e por isso tem que se afastar, mas que não perde o olhar para aquele lugar, então fica distante, mas vigilante daquele espaço. Foi a primeira impressão que eu tive, de um anti-herói revolucionário contra o sistema que prefere se afastar, mas não ignorar as suas origens.

O que Lunga tem da pessoa de Silvero?

Lunga tem muito da minha história. Sou nordestino, do sertão central que é um lugar de uma política muito castigada pela seca, de um coronelismo absurdo. Eu saio da minha cidade muito cedo, com 13 anos, para ir para a capital, tentar estudar, mudar minha cabeça. Sou o primeiro da geração da minha família a se graduar pela Universidade e como artista. Depois, toda vez que eu retorno para a minha cidade, as pessoas olham para mim com uma espécie de esperança, como uma pessoa que deu certo na vida e alguém que é um revolucionário. Então Lunga traz isso, tem uma cena inclusive muito importante para mim que Lunga está comendo, ela percebe aquela cidade e ela diz: ‘é muito difícil retornar, mas é muito importante estar aqui’. Essas coisas parecem muito com o Silvero.

Bárbara Colen é Teresa em Bacurau

De alguma forma, como se relaciona a dramaturgia das Travestidas no teatro com a personagem de Lunga no cinema?

Na verdade, Bacurau é uma vertente bem diferente de tudo que eu já fiz no teatro. Acho que a única relação parecida das Travestidas com Bacurau é esse engajamento, essa importância de trabalhar a arte como espaço de questionamento, de provação que faz pensar, não é uma obra apenas de entretenimento e sim de ampliar as ideias e causar um impacto.

Como você percebe a representação de uma personagem que desafia os estereótipos de cabra macho do Nordeste, ao mesmo tempo que faz dele um ponto de força, no cinema nacional?

Eu acho que todas as personagens de Bacurau são extremamente importantes por que é um filme de diversidade. É uma comunidade pacata, onde todos são extremamente diferentes, a maneira como as famílias são compostas ali não são as famílias tradicionais brasileiras, elas têm suas diversidades, mas elas respeitam todas essas diversidades, para elas, isso não é uma questão, ser diferente e isso é o que tem que acontecer no nosso país. Temos que quebrar esses estereótipos do masculino, do feminino, de quem tem mais poder dentro de casa, ‘quem paga o prato na casa é quem manda’… Todas as personagens na verdade estão ali como uma representação de um Brasil, país de tantos sotaques, tantas culturas, tantas maneiras de se vestir diferente, mas que nós ainda não aprendemos a respeitar e viver em diversidade.

Qual seria a resposta do filme ao Brasil atual?

Bacurau é um filme de um futuro muito próximo. É muito interessante a alegoria que Bacurau faz para contar uma história que na verdade é cíclica, a gente tem a mania de taxar o Brasil como país que cresceu muito em consequência do que a gente pensa sobre os grandes centros, sobre as capitais. Mas, no fundo, no fundo, dentro, nas raízes brasileiras que são as cidades do interior, do interior do Nordeste, do interior do Norte, a política ainda é muito forte. As pessoas ainda têm medo de discordar dos vereadores, dos prefeitos, por que isso pode trazer para elas uma perda total de qualquer outra questão da cidade, de emprego, de vivência, de sobrevivência. Então Bacurau é isso, é uma resposta a um país que ainda existe, e embora que esse filme seja feito no futuro, é uma imagem recente, é como se quisessem dizer que não estamos tão longe, é um futuro bem próximo. Ainda não perdemos a violência do sistema político e opressor que vivemos.

Silvero Pereira na pré-esteira de Bacurau no Rio de Janeiro, no dia 26 de agosto.

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Jornalista. Escuto Angela Roro, tomo Pitu na lata e roo pequi. Não confio em quem não gosta de coentro.

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