Uma estrela do Cariri em Portugal

No último sábado (29), uma figura do Cariri se apresentou na marcha do orgulho LGBTI+ em Lisboa, essa edição foi uma das maiores, reuniu mais de 50 mil pessoas na cidade. Você sabe quem é a artista?

Apresentação de Heidy na marcha de orgulho LGBTI+ 2019 em Lisboa Foto: Raquel Pimentel

No último sábado (29), uma figura do Cariri se apresentou na marcha do orgulho LGBTI+ em Lisboa, essa edição foi uma das maiores, reuniu mais de 50 mil pessoas na cidade. Você sabe quem é a artista?

Senta aí que lá vem história.

Em agosto de 2017, Heidy Samantha, que é cratense e o companheiro de vida e de trabalho, Weskley Sousa, decidiram tentar espaço em cenários europeus. A artista que antes era produtora da Quebra Tranca, viu sua carreira e a de Weskley estagnada no Cariri, depois de dois baterista da banda também terem ido tentar novos solos em outros países, eles perceberam que também era a vez deles de buscarem palcos em Portugal.

A primeiro momento a mudança era só uma ideia, que com o tempo foi crescendo. Familiares do casal moram em Portugal, Weskley recebeu muitas propostas de ir para o país, mas sempre recusava, até que uma sobrinha que mora em terras portugas, decidiu casar e os convidou para o casamento. Essa foi só a motivação que falta para eles venderem tudo, arrumarem as malas e darem olá para os lusitanos.

Um Eu Artístico

Uma das apresentações de Heidy e Weskley em Lisboa

Heidy sempre gostou de cantar, mas nunca achou que era boa o suficiente para estar em algum projeto – ela muito boa, sim -, por conviver com muitos músicos, passou a se exigir demais. Depois de largar o emprego no qual passou 4 anos, começou a trabalhar com a banda Nazirê, virou produtora de estrada, assistia shows, ajudava no figurino e acompanhava os processos de composições das músicas, tudo isso passou a inspirar Heidy, cada instante que passava ali ela sentia mais vontade de cantar. Por mais que ela ainda não tivesse entrado de cabeça na vida de cantora, sempre foi artista ou de alguma forma permanecia ligada à música.

” O meio artístico sempre fez parte da minha vida, principalmente depois que me casei com um músico, mas antes dele já havia feito teatro, acho que sempre fui artista para falar a verdade.” comentou a Heidy

No meio dessas produções e depois de ter se enxergado como cantora, a artista decidiu ganhar dinheiro com a arte – e não era fazendo miçanga- , passou a ensaiar com seu parceiro, Wescley, e mesmo achando que tinha dificuldades para cantar, montou uma apresentação a voz e violão.

“Eu sentia muita dificuldade em cantar, muita mesmo, não sabia o que fazer para melhorar os defeitos que enxergava em minha voz, Weskley também não sabia como me ajudar, eu não ganhava o suficiente para fazer técnica vocal, entrei até para o coral da UFCA, ajudou, mas não o suficiente.” confessou Heidy

Um Eu Artístico em Portugal

Apresentação em especial ao Dia de Liberdade

Por mais que fosse muito perfeccionista e não gostasse de como estava cantando, Samantha decidiu que precisava dá uma chance para si mesma, como fazia para os projetos que trabalhava, se dedicar o tanto que se dedicava a eles. Então, junto com parceiro, começou a tocar nas rua de Lisboa. O dono de um cafeteria os viu na rua e fez o convite para que eles tocassem no seu estabelecimento, no esquema de passar o chapéu, era um público rotativo que deixava uma pequena quantia, como vimos em muitos filmes, quase todos os dias eles estavam ali, esse foi o primeiro sustento do casal.

Um conhecido os recomendou um produtor cultural da cidade ele os convidou para se apresentarem no Centro InterculturaCidade, lá eles fizeram um show intitulado “Noite do Cariri”.

“Falamos sobre o Cariri, a cultura, os costumes, comemos baião, bebemos cachaça e colocamos os Tugas (como chamam os portugueses) para dançarem forró, foi muito bom, porém as mesma dificuldades ao cantar.”

Nesse mesmo espaço, ela conheceu um professor de canto, que cobrava um preço mais acessível por aulas, mas ainda não pode pagar, já que a guitarra de Weskley tinha sido apreendida na calçada do café, pois não tinham autorização para fazer shows ali. Foi quase um ano sem música, ela passou a trabalhar em subempregos, mas como tinha uma renda, decidiu estudar e se aperfeiçoar.

Depois disso ela conheceu um bloco de carnaval pela internet, onde quem quisesse poderia comparecer nos ensaios abertos e tocar algum instrumento de percussão.

Nós fomos ao ensaio porque sabíamos que ia ter por lá vários brasileiros. Eu sempre quis aprender a tocar algum instrumento de percussão, fui atrás disso, até comecei tocando. O segundo ensaio foi com caixa de som e voz, a cantora era uma baiana chamada Jaci, logo quando cheguei, fiz uma participação num show dela, no Café KLG estudio, conheci esse bar e o dono gente boa, nos chamou pra dar uma canja no show da nega (como ela é conhecida, nega Jaci), ela lembrou logo de mim e me chamou pra ajudar ela a cantar, e eu meio temerosa, pois o estilo de músicas não tinham nada a ver com o que eu cantava, tava ali pra tocar.”

Mesmo assim ela continuando tocando, a nega Jaci estava grávida e precisava de apoio, Heidy continuou tocando para ajudá-la. Até que o carnaval chegou e ela se apresentou para um público que não esperava.

” O carnaval chegou e foi uma loucura, eu nunca imaginei que seria daquela maneira, cantei pra uma quantidade de gente que nunca pensei cantar na vida, tava lotado mesmo. Foi uma experiência incrível, eu pude por em prática o que tinha aprendido nas aulas de canto, e aprendi muito sobre presença de palco com ela… eu amadureci imenso depois desse bloco, o Colombina deu uma alavancada na minha vida artística. “

Depois dela e Weskley terem sido convidados para o Vox Brasilis, projeto específico para as comemorações de 25 de abril, Dia da Liberdade em Portugal, onde cantou músicas brasileiras de resistência e liberdade, ela segue o seu projeto pessoal, o Duo Tropikariri, composto por ela e Weskley.

Um público com saudades de casa

Repertório em Portugal é diferente do repertório que ela construía aqui, depois de andar em alguns bares, passou a construir o seu show.

“Fui vendo o que se tocava por aqui, e construindo o meu. É bem diferente da proposta de público do Cariri, porque aí eu meio que queria fugir do clichê, buscava não repetir as coisas que já eram cantadas por outras pessoas, fora que escolhia canções mais suaves que eu fosse capaz de executar sem muita dificuldade, pop rock, nova MPB etc. Já aqui é outra visão, muitos lugares o público é rotativo, mesmo onde não é, o pessoal gosta de matar a saudades do Brasil, para um projeto comercial, temos que cantar o que as pessoas gostam de ouvir, muita bossa nova, samba, não rola muito cantar coisas que ninguém conhece. “

A cantora passou a se arriscar mais depois das aulas de canto, passou a gostar do som da sua voz, hoje ela canta canções que tinha vontade, mas que o medo não permitia. Para a sua surpresa, ela passou a cantar forró

“Estando distante de casa percebo na importância de levar comigo as minhas raízes nordestinas, todos que me ouvem falar reconhecem o sotaque diferente, muita gente pensa que somos de Recife, depois explicamos a semelhança com o sotaque deles. Eu sempre ouvi forró Pé de Serra, Baião, Xote, cresci ouvindo Luiz Gonzaga, vejo várias pessoas cantando forró, aqui até Tuga cantando forró. Aí eu vi que eu sou a autêntica nordestina, cearense, ex dançarina de quadrilha, com o sotaque do sertão, resolvi me apropriar da minha própria cultura, coisa que aí eu não fazia, tem sido maravilhosa, ao mesmo tempo que me divirto, aprendendo mais sobre forró, mato as saudades de casa. “

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Sobre Rayssa Leonel

Estudante de comunicação, pesquisadora das artes sensuais de permanecer viva em todos os rolês. Uma mulher prettamexmo (meu insta), bandoleira, com a cabeça na lua e os pés nas águas.

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